Sinopsis
"Escrever é não esconder a nossa loucura." A frase de Arnaldo Jabor abre A Quinta Estiagem e funciona como chave de leitura: aqui ninguém disfarça. As histórias começam exatamente onde a maioria das pessoas prefere calar. Por todo aquele ano não choveu na região. A caatinga acinzentada parecia ter morrido de lepra, uma lepra que se espalhou acinzentando tudo, até o chorar virar resmungo de dentes cerrados. Todas as reses morreram de sede e de fome, a mula de carga também, e a família já não chorava a morte: aos poucos se despedia de tudo e de todos, à espera do momento de enfrentar a penosa viagem até o Sudeste. Quem procura literatura brasileira que fale de perda sem falsa consolação costuma esbarrar em dois extremos: o retrato pitoresco do sertão ou o discurso pronto sobre superação. Nenhum dos dois diz o que acontece por dentro de quem perde a terra, o gado, a avó e a própria certeza de que valeu a pena resistir. Este livro escolhe o caminho difícil. São contos e crônicas curtos, que se leem em poucos minutos e ficam por dias. Em um deles, um médico rico e admirado atravessa a tempestade de roupas brancas coladas ao corpo, a máscara pendurada no pescoço, livre enfim de todos os papéis que representou. Em outro, um homem que aprendeu com os pais que Deus é sandice de velho sobe o monte diante do irremediável e chora, calado, uma oração que não sabe fazer. Entre a seca e a chuva, o autor escreve o cotidiano brasileiro recente: a pandemia, o medo coletivo, as despedidas que não aconteceram, a fé que aparece tarde e mesmo assim aparece. José Sirqueira Abreu escreve com frases curtas, imagens fortes e diálogos secos, sem sermão e sem moral explicada. São 154 páginas em que o leitor reconhece a própria família, os próprios silêncios e as próprias perguntas sem resposta. Se você lê contos e crônicas brasileiras, se gosta de histórias que cabem em uma noite e não cabem em uma explicação, comece por A Quinta Estiagem. A primeira página já basta para saber se este livro é para você.